Entre M�e e Filha
� um blog escrito a quatro m�os, m�os da mam�e, a Nina e da filhinha, a Laura (ou Yume).
Falamos sobre v�rias coisas. A mam�e sempre lembrando das coisas da sua vida, da sua inf�ncia. A filhinha, suas experi�ncias, seu aprendizado, suas pequenas loucurinhas em terra estrangeira.
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07/04/2008 03:48
A Bisavó
Eu falo muito de passado porque as coisas que vivi são muito fortes ainda dentro de mim. Isso talvez seja envelhecer. Não que eu me sinta uma velha coroca, mas acho mesmo que faz parte dessa viagem ao envelhecimento uma viagem ao passado que vivemos. Já li em algum lugar que os mais velhos com problema de memória, por exemplo, Mal de Alzheimer, podem lembrar de coisas vividas há muitos anos mas não lembram o que fizeram há alguns minutos.
Meus filhos têm duas avós, nenhum avô mais, mas têm ainda uma bisavó! Ela tem 98 anos, se veste toda bonita ainda hoje, coloca seu batonzinho, pinta os cabelos, e todo dia está impecavelmente arrumada. Até pouco tempo atrás, ela ainda fazia crochê, e costurava roupinhas pra crianças de um orfanato em Belo Horizonte. Não a vejo há algum tempo, mas acho que ela ainda o faz.
Ela conta histórias de seu passado tão vivamente como se estivesse acontecendo agora, mas no dia do seu último aniversário, perguntava a todos, afinal pra que aqueles presentes, quem estava fazendo aniversário??
Dela tenho boas recordaçoes, de mim certamente, ela já não se lembra mais. Quando nos conhecemos, Laura tinha pouco mais de 3 meses de vida. Depois de alguns dias desse encontro, fomos a um restaurante, e a bisa me olhando curiosa, certamente me achando exótica pro seu neto de olho azul, pele branca, cabelo louro. No restaurante, ela sentava pertinho de mim e me contava da sua viagem ao Amazonas, quando a minha então sogra ainda era uma jovem. No meio de um copo de cerveja e outro, a bisa pediu pra os cantores tocarem India em minha homenagem. „India teus cabelos nos ombros caídos, negros como a noite que não tem luar“...
A bisa me abraçava e dizia que adorava agora ter uma índia na família.
E era assim o carinho dela comigo, meiga e irônica ao mesmo tempo, passava as mãos macias no meu rosto, quando nós a abraçavamos, tinha aquele cheirinho gostoso de vó, me mostrava fotos do passado, e mandava preparar almoços deliciosos pra gente se sentir em casa.
Quando ela começou a dar os primeiros sinais de esquecimento de alguns fatos mais atuais, ela esquecia até o neto, mas a índia aqui, não. Quando eu ia a BH ela dizia: „Nina, Nina, você nunca vem a Belo Horizonte, como vai o Amazonas?“
Eu me sentia à vontade com a bisa dos meus meninos, e eu me lembrava da outra bisa que eles não conheceram, aquela do Amazonas.
Agora acho que a bisa vive em outro mundo. Um mundo onde o marido dela ainda vive, onde a vida é mais simples. Um mundo onde ela ainda se lembra de tudo. Talvez por isso a bisa ainda chore enquanto fala como se fosse hoje...
como terá sido a vida de quem nasceu há quase 100 anos??

Como foi eu não sei, o que sei é que o contato dos nossos filhos com esse passado dos avós é primordial pra seu crescimento. Se você tem essa chance, não desperdice!
enviada por Nina
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